UAT MC 2Produção do conhecimento: pesquisa-ação

Compreendendo o sentido do TCC

Neste módulo, você iniciará a organização do seu trabalho de conclusão de curso (TCC), por meio da construção do Projeto de Intervenção. Para isso, deverá recorrer às atividades desenvolvidas nas unidades de aprendizagem 1 e 2. Fique atento aos passos sugeridos para essa construção e recorra ao seu tutor sempre que necessário.

O curso tem como exigência acadêmica a elaboração de um TCC e espera-se que o mesmo seja um projeto que vise a uma ação sobre a realidade, no processo de trabalho e/ou à organização da instituição escolar em que você atua, ou mesmo um projeto que contribua para o planejamento e incorporação de novas tecnologias à comunidade escolar.

Os cursos da ENSP nas modalidades lato sensu definiram diferentes modos de desenvolver e apresentar os TCC. Neste curso, indicamos fortemente que você desenvolva o TCC no formato de Projeto de Intervenção (PI), possibilitando maior sinergia entre o conteúdo teórico e prático, além do ganho institucional com a diversidade de projetos a serem desenvolvidos na comunidade escolar em que você e os demais participantes do curso atuam.

O PI, tal como o propomos, deve ser compreendido e, se possível, realizado como ação conjunta, partilhada entre você e os demais atores da escola em que atua e tudo aquilo que você considere relevante para o desenvolvimento. É fundamental compreender que não se trata de uma produção solitária para você ou outros posteriormente desenvolverem, ou apenas para conclusão desse processo de formação, deverá, sim, ser fundamentalmente um projeto que tenha possibilidades de ser desenvolvido ao longo do curso por você junto a quem achar pertinente. Ou seja, esse projeto desde sua proposição, passando pela elaboração e desenvolvimento, ocorre transversalmente durante o curso, e deve contemplar os princípios da gestão democrática na escola como práxis criadora.

Os espaços de formação em serviço precisam ser pensados como oportunidade da realização das práxis. Dessa forma, nosso curso sugere que você construa um projeto de intervenção tendo como ponto de partida a sua prática na escola. Mais do que refletir sobre o “como fazer”, esperamos que você com o desenvolvimento de seus estudos das unidades de aprendizagem se aproprie de novas ferramentas teórico-práticas que te permitam ter outros olhares, com novas possibilidades de se fazer a gestão de projetos de investimentos de forma eficiente.

Vazquez (1977) já refletia que, se a teoria em si não transforma o mundo, pode contribuir para sua transformação, desde que assimilada por aqueles que vão fazer, com seus atos reais, efetivos, essas transformações.

Os PI normalmente fundamentam-se nos pressupostos metodológicos da pesquisa-ação. Sua base é a ideia de uma relação dialética entre pesquisa e ação, deixando claro que a pesquisa nessa relação deve permitir a transformação da realidade. O maior ganho pedagógico dessa metodologia é a possibilidade de que à medida que os sujeitos pesquisam a sua própria prática, podem produzir novos conhecimentos e, assim, apropriarem-se e ressignificarem suas práticas, de forma crítica à realidade em que atuam. A construção da práxis na lógica de um projeto de intervenção, tem a possibilidade de envolver todos os atores participantes como sujeitos promotores das mudanças.

De acordo com Thiollent (2005, p. 16):

Pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

Dois objetivos são atribuídos à pesquisa-ação:

  1. Objetivo prático: relacionado ao tipo de problema que a pesquisa pretende resolver ou contribuir para sua resolução.
  2. Objetivo de conhecimento: obter informações, aumentar o conhecimento sobre determinado problema.

No PI, a elaboração do projeto e seu desenvolvimento são processos simultâneos e você vivenciará isso a partir desse módulo. É bom ter clareza que esse projeto não será feito e depois aplicado, ao contrário, a elaboração inicial dele pode ir sendo modificada à medida que a intervenção, ou a busca pela resolução do problema, for ocorrendo.

Recomendamos a leitura do texto “Notas para elaboração de projetos de investigação científica e projetos de intervenção”, de Suely Ferreira Deslandes, pesquisadora da Fiocruz. Nele, a autora apresenta e comenta vários conceitos relacionados à elaboração de um projeto de intervenção como o que você precisará desenvolver.

Iniciando a elaboração do TCC

Vamos, agora, começar a produção escrita do seu PI. Para iniciar a construção do projeto, você deverá selecionar um assunto entre os diversos que se apresentem como problema ou uma ação que deseja desenvolver em sua escola, e que deve ser pactuado com seus pares que podem estar envolvidos, principalmente com aqueles que têm poder de decisão. Escolha um problema, ou ação, na área de gestão de investimentos na escola onde atua, que possivelmente você já identificou durante seu estudo da Unidade de Aprendizagem 2.

É bom ter clareza que esse projeto como atividade de conclusão do curso (TCC) terá que obedecer ao regulamento do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da ENSP. Atender o regulamento significa estar atento ao período de término do curso e, portanto, da defesa do TCC, conforme consta no Caderno de Aluno deste curso. Assim, a implementação do projeto não deverá estar condicionada ao curso. Converse com o seu tutor.
A elaboração inicial do projeto de intervenção pode ir sendo modificada à medida que a intervenção, ou a busca pela resolução do problema, for sendo desenvolvida durante as atividades e reflexões previstas no planejamento (UA II).

Com o assunto selecionado, o 1º passo será desenvolver a Introdução do trabalho. A introdução é uma escrita sucinta que apresentará o conteúdo do Projeto. Ela deve informar sobre o autor, o objetivo, o local e o problema – ou ação – que será contemplado no projeto:

  1. Apresentação do autor do projeto.
  2. Qual o principal objetivo do PI.
  3. Local onde ele será desenvolvido: apresentar de forma descritiva onde será executado o projeto. Descrever a(s) instituição(ões) envolvida(s), área(s), departamento(s), setor(es), diretoria, ou seja, em qual contexto institucional o projeto será desenvolvido. Lembre que quem não conhece precisa compreender sobre onde o projeto está inserido e terá sua execução realizada.
  4. Identificar qual o problema a ser enfrentado ou ação a ser desenvolvida. Quem, onde, por quê, para quê?
O problema é a questão que buscar-se-á resolver por meio do PI. Um problema deve ser:
  1. claro e preciso – todos os conceitos e termos usados em sua definição não podem causar ambiguidades ou dúvidas;
  2. empírico – ou seja, observável na realidade social do seu contexto de atuação, por meio de técnicas e métodos apropriados;
  3. delimitado;
  4. passível de solução – é necessário que haja maneira de produzir uma solução para o problema dentro de critérios metodológicos e de cientificidade.

O problema identificado para ser trabalhado no PI deve ser passível de aplicação local e estar relacionado tanto ao funcionamento das equipes, quanto de situações observadas na comunidade escolar ou na gestão do conhecimento dos sistemas de informação das unidades escolares.

Uma pergunta-chave para a formulação de um problema é: Em que intervir?

Vamos relembrar as etapas para a formulação do problema:

1ª Etapa – Descrever o processo de definição, ou seja, como cheguei na definição do problema;

2ª Etapa – Descritores do problema que darão a dimensão do que deve ser “mudado”;

3ª Etapa – Causas e consequências relacionadas ao problema.

No PI, podemos tomar como exemplo de problema a “baixa notificação de maus-tratos por parte das escolas” ou as “altas taxas de homicídios de adolescentes de um dado município”. A demarcação do problema envolve a pesquisa sobre suas formas de apresentação na realidade, suas causas (ainda que a luz de contextos complexos e inexplicáveis), sua magnitude e sua dinâmica de produção e reprodução, identificando os atores envolvidos e seus papéis. Além disso, envolve também a pesquisa sobre as ações e os projetos que já foram criados para enfrentar esses problemas.
Retorne às atividades desenvolvidas nas UA I e II. Elas darão subsídios para você desenvolver o 1º passo do PI. Na UA I, você poderá identificar o contexto em que o projeto estará inserido. No módulo 6 (passos 3-5) da UA II, você encontra o passo a passo para identificar o problema que irá nortear o PI.

O 2º passo contempla a Justificativa, ou seja, qual a razão que determinou a escolha do tema do projeto, centrada na análise do ambiente e na formulação do problema. Essa etapa é o convencimento da pertinência do projeto. Por que é importante abordar esse problema? Por que convém abordá-lo neste curso? Qual é a relevância científica, social e institucional dessa proposta de intervenção?

Para que o problema e os objetivos estejam bem delimitados é preciso que o autor apresente justificativas para a execução do projeto. É importante argumentar qual é a relevância do trabalho. É preciso justificar porque é importante estudar ou realizar o que se propõe no PI.

Na justificativa, você também deve delimitar o público-alvo, ou seja, desenvolver a descrição das pessoas ou instituições em benefício das quais foi concebido o projeto. Os destinatários podem ser apresentados como beneficiados diretamente (beneficiários diretos) ou de forma indireta (beneficiários indiretos). A definição do público destinatário ou do coletivo a ser beneficiado ocorre no processo de definir o problema, e se confirma quando se dimensiona o problema ao identificar as consequências do mesmo.

Para o 3º passo, você deve elaborar as hipóteses para o problema. Lembre-se que a hipótese é a construção de afirmações provisórias sobre o problema. Ou seja, você buscará elaborar respostas para a pergunta originada a partir do problema levantado.

No projeto de intervenção, é possível formular hipóteses voltando-se para as estratégias adotadas diante dos resultados esperados.

Por exemplo, se a proposta de intervenção considerar que:

  1. um maior investimento em capacitação dos professores proporciona o aumento da notificação de situações de maus-tratos contra crianças.

Se for essa a hipótese implícita, então o projeto irá se alinhar nessa direção, tomando como um dos objetivos:

  1. “aumentar a oferta de formação profissional” para essa categoria profissional, sugerindo estratégias para isso (seminários, cursos, palestras ou outras metodologias para todos os professores ou para multiplicadores etc.).

Somente a implantação da ação do projeto e sua posterior avaliação permitiriam confirmar ou refutar a hipótese adotada.

O 4º passo é a base teórica que caracteriza o trabalho do ponto de vista acadêmico propriamente dito, normalmente chamado de referencial teórico. Deve explicar tanto a definição do problema, quanto a proposta de intervenção.

Nesse momento, você pode retornar na UA 1, “Contextualizando”, e ver os exercícios, textos e fontes de informações que serviram como referencial para a definição do problema. Na UA II, pode também verificar os referenciais que fundamentaram a proposta de intervenção.

É de suma importância sua atenção e dedicação na construção do referencial teórico pois ele destaca a relação que você estabeleceu entre a teoria e o problema identificado. Tente responder às questões simples, tais como: o que sabemos até hoje sobre o problema? Quem os estudou? Existem outras experiências de intervenção semelhantes? Quais foram as metodologias utilizadas por tais experiências?

Você pode utilizar na construção do referencial teórico:

  1. Fontes de informação: Censos, pesquisas populacionais, mapas em geral e mapas de georreferenciamento, sistemas de informação etc.
  2. Documentos oficiais: Portarias, normas, programas governamentais etc.
  3. Textos: Livros e textos científicos que fundamentem as decisões tomadas, tanto na escolha do problema como da estratégia de intervenção.
Se, por exemplo, alguém vai propor estudar “os conhecimentos, atitudes e práticas de professores da rede pública diante da exploração sexual de crianças e adolescentes” ou propor um projeto de intervenção voltado para a “reinserção escolar de adolescentes vítimas da exploração sexual”, espera-se que em seu marco teórico haja, pelo menos, a apresentação de suas referências de ancoragem, sua leitura de base sobre o conceito de exploração sexual, a apresentação de uma revisão sobre o papel da comunidade escolar na prevenção e atuação diante das situações. Espera-se ainda uma teorização sobre as categorias analíticas (conhecimentos, atitudes e práticas no primeiro caso e reinserção escolar no segundo exemplo).

Nosso 5º passo será descrever o que o projeto deve fazer, produzir ou atingir. Para isso, devemos delimitar os objetivos do projeto. Os objetivos estão diretamente relacionados aos “nós críticos”, que foram identificados ao longo da formulação do problema.

O PI deve ter um único objetivo geral (mais amplo), que seja a imagem invertida do problema identificado, e alvo de maior abrangência do que se pretende atingir. Deve, também, ter quantos objetivos específicos (são as partes do geral) forem necessários para detalhar o objetivo geral, indicando exatamente o que será realizado no projeto.

Cada proposta de intervenção deve ser transformada em objetivo, isto é, o objetivo é “desatar o nó”. É importante identificar de forma clara e realista o que se quer atingir. Ou seja, deve-se definir como alvo aquilo que é viável no contexto atual. Os objetivos sempre são formulados com o verbo no infinitivo, pois implicam ações. Para cada objetivo específico, será definida posteriormente uma meta. Observe se os objetivos específicos estão em número suficiente para abrangência do tema, bem como se são possíveis de serem alcançados.

Deve-se sempre ter cuidado para não confundir o objetivo com o método/estratégia. Por exemplo, “entrevistas com professores sobre as estratégias pedagógicas desenvolvidas em sala de aula com as crianças com déficit de atenção” não é um objetivo de estudo, mas uma estratégia de método para alcançar um determinado propósito.

Neste caso, o objetivo poderia ser “analisar as estratégias pedagógicas desenvolvidas pelos professores em sala de aula com as crianças com déficit de atenção”, ou mesmo “analisar os procedimentos adotados pelos professores para acompanhamento das crianças com déficit de atenção”.

Da mesma maneira que “realizar seminário de sensibilização de professores para identificação de situações de abuso sexual envolvendo crianças” é uma das muitas estratégias para o objetivo de “fortalecer atitudes favoráveis para a identificação de situações de abuso sexual de crianças”.

Em um PI, o conjunto de métodos volta-se para a realização de objetivos práticos, relacionados às ações propostas. Cada objetivo deve estar a serviço de uma imagem ou uma condição a que se almeja chegar, considerando-se ponto de partida o problema eleito.

Atividade MC 2

Organize e registre os passos de 1 a 5 da elaboração do seu TCC. Para isso, revise se o objeto, ou situação-problema escolhido para ser trabalhado no seu Projeto de Intervenção está bem delimitado, claro, simples e direto. Ele será seu ponto de partida para essa atividade. Retome o Módulo 6, da UA 2, onde iniciou a identificação do problema para o Projeto de Intervenção, para te auxiliar nessa atividade.

Envie sua produção para o(a) tutor(a)-docente.