Unidade 1
Ações em saúde e exercício de cidadania: caminhos para conhecer o perfil de mortalidade materna, infantil e fetal

1. A história de Maria de Lourdes

A história

Dados de Maria de Lourdes
Residência

Macamirin, Região Nordeste, Brasil

Idade

36 anos

Conjuge

José

Filhos com José

um com 4 anos, um natimorto há 2 anos e uma 3ª gestação

Filhos com companheiro anterior

com 14, 12 e 8 anos

Pré-natal

Unidade Saúde da Família

Atendimento ao parto

Unidade de Pronto Atendimento; Maternidade Municipal de Macamirim; Maternidade da Capital

Contexto de Macamirim (Região Nordeste, Brasil)
Dados populacionais
População

113.561

Área

600 km2

Renda média

R$ 456,00 (1/3 da média brasileira)

IDH

0,691

Usuários da rede pública de saúde

80%

Fonte: Dados baseados no Censo e nos Indicadores sociais do IBGE (2010, 2011).
Dados do sistema de saúde
Estabelecimentos de saúde

49 públicos e 13 privados

Unidades básicas de saúde

30

Equipes de Saúde da Família

24

População com atenção primária à saúde

75%

Hospital municipal

1 (com 47 leitos, sendo 15 de obstetrícia e 5 de unidade neonatal intermediária)

Unidade de Pronto Atendimento 24h (UPA)

1

Policlínica municipal

1

Fonte: Dados baseados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).
Em 2011, Maria de Lourdes aguardava o seu terceiro filho com José.
O berço já ocupava um cantinho no quarto dos filhos menores, na sua casa, em Macamirim.
No início de março, Maria de Lourdes compareceu à Unidade de Saúde da Família para a consulta de pré-natal.
Final do 7º mês de gravidez
A gravidez trancorria bem, mas o médico falou que a sua pressão estava um pouco alta.
Há quatro anos, quando teve seu primeiro filho com José, Maria de Lourdes ficou com pressão alta no final da gravidez. O parto aconteceu sem nenhum problema e o bebê ficou bem.
Dois anos depois, Maria de Lourdes voltou a engravidar. Desta vez sua pressão subiu quando estava com seis para sete meses de gestação, o que levou a um deslocamento de placenta e o bebê nasceu morto.
Na gestação atual, ela começou o pré-natal apenas no final do quarto mês porque não sabia que estava grávida até aquele momento. Só desconfiou da gravidez quando "já tinha posto barriga de verdade".
Anexo
Nas duas últimas semanas, Maria de Lourdes vinha apresentando uma inchação nas pernas e às vezes se queixava de dor de cabeça. Com um dos filhos mais novos adoentado para cuidar e o trabalho em uma fábrica de cortinas, ela não conseguiu cumprir as orientações do médico de fazer repouso e procurar a maternidade.
Para refletir

A Rede Cegonha, implantada no país em 2011, preconiza o início da assistência pré-natal até a 12ª semana de gestação, com acompanhamento da mulher durante a gestação, o parto e o puerpério e acompanhamento da criança até o segundo ano de vida.

Maria de Lourdes iniciou o pré-natal apenas no final do quarto mês de gestação, um início considerado tardio, principalmente para uma grávida que já havia apresentado desfechos negativos em gestações anteriores.

Qual seria o papel das Equipes de Saúde da Família, em especial dos agentes comunitários de saúde, na busca ativa de gestantes em seu território de atuação para início precoce da assistência pré-natal?

Como tem se dado a implantação das atividades da Rede Cegonha pelas Equipes de Saúde da Família em seu município?

No dia 10 de março, Maria de Lourdes foi ao trabalho, mas voltou para casa no final da manhã porque não estava se sentindo bem.
Início do 8º mês de gravidez
Depois de dar almoço aos filhos, disse a José que ia se deitar um pouco porque precisava descansar. Acordou sentindo fortes dores de cabeça e no estômago, e falou com o marido que achava melhor ir ao hospital.
No carro de um vizinho amigo, ela e José seguiram para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) próxima à sua casa, mas não foi atendida porque ali não cuidavam de grávidas. Foram encaminhados para a maternidade do Hospital Municipal de Macamirim.
Após cerca de duas horas de espera e enquanto ainda aguardava por atendimento na maternidade, Maria de Lourdes apresentou convulsões na recepção. Foi encaminhada com urgência ao centro cirúrgico para a realização de uma cesariana.
O bebê nasceu vivo, mas Maria de Lourdes não resistiu às complicações e faleceu durante a cirurgia.
Anexo
Para refletir

Que demoras você identifica no caso de Maria de Lourdes? E no seu município? Quais são os tipos de demora mais comuns e como elas poderiam ser evitadas?

O Dr. Felipe, plantonista da maternidade, comunicou o óbito a José. Maria de Lourdes morreu de "hemorragia e parada cardíaca". José ficou arrasado por perder a mulher que amava.
Ainda desconsolado, José foi ao cartório no dia seguinte para registrar, ao mesmo tempo, o óbito da mulher e o nascimento do filho.
Anexo
A morte brusca de Maria de Lourdes pegou os familiares e vizinhos de surpresa e trouxe muita dor e sofrimento a todos.
Mais ainda, o fato poderá desencadear a desarticulação da já precária estrutura familiar, colocando em risco a saúde e o futuro de seus filhos.
Anexo
A diminuição da renda familiar provocada por essa morte aumentou a insegurança da família em relação à alimentação, pois o salário de Maria de Lourdes era a única fonte fixa de renda. José, seu companheiro e pai do recém-nascido, não tem emprego estável, e ganha pouco fazendo biscates na região onde moram.
Enquanto isso...
O filho de Maria de Lourdes, Carlos José, que nasceu de 8 meses, pesando 2,200 kg, teve dificuldade para respirar nas primeiras horas de vida e foi colocado em um berço aquecido e com oxigênio, na unidade de cuidados intermediários (UCI) da Maternidade de Macamirim.
Seis dias após a morte de Maria de Lourdes, seu filho também faleceu.

As mortes de Maria de Lourdes e seu filho não ocorreram ao acaso, elas estão relacionadas às condições de vida e saúde.

Para conhecer a história de outras mulheres vítimas de morte materna, assista ao filme Evitável, que aborda a história de mulheres vítimas de morte materna, cujas trajetórias interrompidas forçam rearranjos familiares inesperados.

Para refletir

A probabilidade de uma mulher morrer durante a gravidez, o parto ou o puerpério é diferente, dependendo da região do país em que vive. É possível analisar essa diferença a partir dos determinantes sociais de saúde (DSS)? Que dimensões dos DSS podem estar relacionados às diferenças desse indicador?

Para apoiar sua reflexão, recomendamos duas leituras:

Atividade 1

Leia o texto 1. A construção do direito à saúde no Brasil e reflita sobre as seguintes questões:

  1. Ao relacionar as situações vividas por Maria de Lourdes e Carlos José aos princípios e diretrizes do SUS, quais destes foram violados?
  2. Como você avalia o cumprimento dos princípios e diretrizes do SUS e a situação da mortalidade materna, infantil e fetal no seu município/região/estado?

Construa um texto de 300 a 500 palavras com suas reflexões e envie sua atividade.

Atividade 2

Com base nos casos de Maria de Lourdes e Carlos José, discuta no fórum os determinantes sociais que podem contribuir para a ocorrência de óbitos maternos, infantis e fetais. Para isso, estude os seguintes textos:

  1. 2. Vulnerabilidade social e mortalidade materna no mundo e no Brasil.
  2. 3. Crianças: sujeitos de direito e sua vulnerabilidade.
  3. 4. Mortalidade fetal: mortes invisíveis e evitáveis.
  4. Perfil de mortalidade materna, infantil e fetal e a atenção à saúde – 2010-2019.

Para auxiliá-lo, consulte os modelos de análise dos determinantes do óbito materno e infantil, apresentados por Jannotti, Silva e Perillo (2013) e por Frias e Navarro (2013).​

Participe do fórum e dialogue com a sua turma.

Atividade 3

Como foi enfatizado em algumas leituras realizadas até aqui, o conhecimento dos determinantes sociais envolvidos na cadeia de eventos que levam à morte auxilia a detecção das necessidades de saúde, e pode subsidiar intervenções efetivas destinadas à prevenção do óbito materno, infantil e fetal.

A partir da sua compreensão dos determinantes sociais e de estratégias para alcançar o cuidado à saúde integral e oportuno à mulher e à criança, desenhe a linha de cuidado à gestante/puérpera e ao recém-nascido no seu município/região/estado, e aponte os desafios para o seu funcionamento. Caso não tenha uma linha de cuidado estruturada em seu município/região/estado, discuta os desafios para a sua implementação.

Para apoiar sua reflexão, analise a Figura 2 – Linha de cuidado da gestante e do recém-nascido, apresentada na página 78 do texto 2. Vulnerabilidade social e mortalidade materna no mundo e no Brasil.

Acesse a atividade para enviar o seu trabalho.