O espaço é um conceito básico em epidemiologia, e a categoria lugar é o principal elemento de análise relacionado ao tempo e as características das pessoas, para estimativas da distribuição geográfica da ocorrência dos eventos em saúde.
Refletindo sobre a concepção de espaço na geografia, conforme discorre Milton Santos (1978, 1988), o espaço torna-se uma forma para entender o comportamento espacial do processo saúde-doença, pela análise do fenômeno biológico como um processo social, espacial e temporalmente determinado. Assim, esses conceitos de espaço geográfico viabilizam superar o modelo descritivo e avançar na análise da relação entre espaço e doença.
Milton Santos
Nascido na Bahia em 1926, o geógrafo Milton Santos é um dos grandes intelectuais do Brasil. Foi professor de diversas universidades, brasileiras e estrangeiras, e teve sua produção reconhecida mundialmente pela abordagem inovadora e socialmente contextualizada que deu para o conceito de espaço.
Milton faleceu em 2001; deixou um conjunto enorme de obras que registram seu brilhante pensamento e nos permitem avançar a partir dele.
Se quiser saber mais:


Nessa ótica, Sabroza e Kawa (2002), Barcellos e Pereira (2006) partem da análise de Milton Santos e deslocam o foco na doença como fenômeno individual para sua determinação social. A partir daí, discutem as novas relações estabelecidas pelas mudanças do trabalho globalizado, no qual cadeia produtiva e concentração de capital não têm limites geográficos.
As cadeias produtivas exemplificam bem a dimensão que o espaço adquire na análise epidemiológica. As alterações nas formas de se trabalhar, provocadas pelo novo contexto de um trabalho que é globalizado, modificaram as formas de adoecer e morrer dos trabalhadores. Isso revelou a necessidade de buscarmos novos modelos teórico-metodológicos, aproximando a epidemiologia e a geografia para compreender o processo saúde-doença como manifestação coletiva e social.
Vamos refletir?
Em um mundo globalizado, não há limitações geográficas para o comércio, por exemplo, de carne. O Brasil é um grande exportador de carne para outros países, especialmente para a China.
Que impacto isso tem na estruturação, contratação e ritmos de trabalho em um grande frigorífico? E que relação estabelece com a saúde dos trabalhadores dessa cadeia produtiva?
Há outras definições de território que nos ajudam a pensar de forma mais complexa a atuação em Visat:
Território é uma porção do espaço geográfico que coincide com a extensão espacial da jurisdição de um governo. Ele é o recipiente físico e o suporte do corpo político organizado sob uma estrutura de governo. Podemos, portanto, considerar o território como uma conexão ideal entre espaço e política (GOTTMANN, 2012, p. 523).
Em outras palavras, perceber o território como recipiente físico e suporte político auxilia na compreensão das delimitações das instâncias de atribuição da vigilância sanitária. Mais do que complexidades tecnológicas ou econômicas, os limites envolvem o suporte político para intervenção em determinado processo produtivo.
Em síntese...
Território configura um recorte necessário para a utilização dos instrumentos epidemiológicos tradicionais e modernos, porquanto permite entender a situação analisada à luz de historicidade, de movimentos vivos de construção e reconstrução da vida e do dia a dia da população a partir de seu trabalho.
Utilizar o conceito de território viabiliza, antes de tudo, situar um processo produtivo, dimensionar suas influências sociais e políticas e organizar estratégias de negociação para a intervenção no campo da Saúde do Trabalhador.
Para complementar e sintetizar a discussão sobre território, veja a figura a seguir, que é detalhada no áudio da autora Maria Juliana Moura Corrêa.
A figura é sobre a representação gráfica dos conceitos de território e territorialidade em saúde, que estão representados pela transversalidade do lugar, seus limites definidos – onde as pessoas vivem, trabalham, se divertem e circulam. E esses ambientes construídos, de casas, ruas, fábricas, lojas, instituições, mercados e edificações, por um lado; e, por outro, dos ambientes naturais, que são os rios, praias, matas, morros, brejos, entre outros, compõem o território, que é muito mais do que o espaço geográfico. E essa figura traz esses elementos, a proposta é de sintetizar o conjunto de componentes, e daí nós temos, à esquerda da figura, as suas dimensões, que são políticas, geográficas, econômicas, sociais e culturais.
Esses componentes estabelecem sobredeterminações. Não tem um caminho único, porque um pode interferir no outro, e assim sucessivamente, constituindo uma cadeia de sobredeterminações, de tensões, que se processam no território. É sobretudo nesse espaço de relações e de processos que estão permeadas as relações de poder, de informação, de trocas, de influências sociais e políticas, da própria organização também de estratégias de negociação, o que ocorre muito frequentemente na nossa intervenção em saúde do trabalhador.
Esses componentes e suas características, que estão traduzidas e sintetizadas nessa figura, sofrem influências, especialmente de conceitos que vêm da disciplina, da geografia, mas também da epidemiologia, que é um dos pontos centrais deste nosso módulo. Então, nós temos uma população demográfica, que está contida nesse espaço, que pode ser caracterizada, então, numa população absoluta, pela faixa etária, por gênero, níveis educacionais, entre outros; e epidemiológicos, características epidemiológicas, a partir de doenças, de estados de saúde e mortes, assim como os geomorfológicos, que seriam o clima, a temperatura, a estrutura de fornecimento de água e esgoto, coleta e toda a distribuição de serviços que são praticados pelo setor tanto público como privado, na área da saúde, transporte e segurança, que inclusive compõem o nosso conceito de saúde.
Então esses elementos, mais os próprios documentos gerenciais, como planos, projetos, vão estabelecer a forma como a vida acontece no território e os processos cotidianos que se desenvolvem. Então, é um território vivo, onde tem uma dinâmica interna que compõe o fazer, o viver e o produzir.
E à direita da figura, nós temos a territorialização e seu processo de transformação, que é muito marcante para nós no território sanitário em saúde. É a forma como os serviços de saúde se organizam para atender as necessidades sociais de determinada população. Isso se estabelece através de componentes processuais, da dinâmica social, de tensões, sim, até porque as conquistas elas não acontecem sem que ocorram tensões, resistências e negociações, de sujeitos sociais e de uma construção que é contínua.
Então os objetivos que a gente consegue traduzir também nessa figura traz os objetivos da territorialização, ou seja, delimitar o território a partir de áreas: então a área de abrangência, área de influência ou área de risco; tanto para compreensão de como se estabelecem essas relações, como também de caracterizar essa população e suas necessidades e a capacidade instalada que se tem nesse espaço geográfico.
Outro objetivo que se usa tanto para territorialização, para definir a população, o perfil de área da comunidade, é outro aspecto do objetivo da necessidade de saber utilizar a caracterização da territorialização, conhecer dentro da área de abrangência o que são barreiras de acessibilidades, que aqui ficou representado pelo caminho da exposição. Então essa seta entre o indivíduo, a rua e o carro mostra que existe um caminho de exposição entre o indivíduo e o ambiente e potenciais barreiras, que têm o objetivo de proteção entre a rota da exposição, o exposto e o risco, e podem ser barreiras ou acessibilidades. Além de tudo isso, ainda é um dos objetivos, quando se faz a territorialização, tanto em saúde como de outras áreas da saúde do trabalhador, se tem o objetivo de conhecer a infraestrutura e os recursos sociais.
Então esse gráfico teve o objetivo de sintetizar todos esses conceitos e dar visibilidade, de uma forma sintetizada, a todos os componentes, tanto do território, da territorialização e dessas relações de poder e processo.
Um bom exemplo da importância de uma análise de dados numa perspectiva de território pode ser visto no artigo Os territórios da degradação do trabalho na região sul e o arranjo organizado a partir da covid-19, de Heck et al. (2020). Mais do que constatar os riscos no ambiente de trabalho que podem ampliar o contágio e a proliferação do novo coronavírus, ou de verificar a semelhança entre a concentração de empregos em frigoríficos e casos de covid-19, a descrição espacial sinaliza para a necessidade de identificar e considerar as relações sociais de produção, que degradam o trabalho e põem em risco a saúde num território. Vejamos a figura a seguir.
As figuras demonstram que os municípios com frigoríficos de aves (à esquerda) e de suínos (à direita) podem ser assumidos como centros de propagação da doença. As manchas verdes indicam a maior concentração de empregos nesses estabelecimentos; e os círculos azuis maiores mostram a concentração de mais de 600 casos de covid-19. A sobreposição é bem clara. Os autores destacam
[...] a semelhança entre o número de casos de covid-19 e a grande presença de empregos em frigoríficos demonstra que é necessária atenção especial para este setor, cujo processo produtivo reúne condições propícias para o contágio e a proliferação do vírus (HECK et al., 2020, p.61).
Vamos refletir?
Percebe como conhecer o território é importante para a atuação em Visat?
O quanto você avalia que conhece o seu território de atuação?
No seu cotidiano de trabalho na vigilância, você já identificou riscos à saúde do trabalhador relacionados com características do território?