Neste módulo, você dará o primeiro passo prático para desenvolver um Plano de Segurança da Água (PSA), que é avaliar o sistema de abastecimento de água. Essa é a fase mais complexa, pois a partir dela serão identificados os perigos e eventos perigosos, para que sejam estabelecidas as medidas de controle. Para isso, é fundamental conhecer detalhadamente o sistema em questão, desde a captação até o uso final da água, mapeando pontos vulneráveis que possam comprometer sua qualidade.
Ao longo das próximas semanas, você aprenderá a descrever o sistema de abastecimento de água, identificar os perigos e eventos perigosos e desenvolver uma matriz de avaliação de riscos. Esse processo permitirá uma visão abrangente e crítica do sistema, contribuindo para a implementação de ações preventivas e corretivas necessárias para garantir a qualidade da água distribuída à população.
Parte integrante do PSA, a descrição deve conter todas as informações sobre o sistema. Na hipótese de a empresa já ter uma documentação elaborada, ela deve ser revista, percorrendo-se todo o sistema, conferindo as informações existentes e complementando-as, caso sejam detectados novos elementos.

A descrição deve conter informações sobre os pontos do sistema que são vulneráveis a eventos perigosos, os tipos de perigos importantes e as medidas de controle já existentes ou as que devam ser propostas. A descrição resultante do percurso realizado e da documentação revisada deve conter informações sobre a microbacia, características da tomada d’água, pré-tratamento, tratamento, armazenamento, sistema de distribuição, entre outras informações consideradas necessárias, adequadas ao sistema de fornecimento de água, objeto do PSA.
Feltmann (2023, p. 137).
Para compreender melhor como é feita a descrição, veja a seguir um exemplo de sistema de abastecimento de água. Perceba como esse documento está detalhado. Quanto mais dados e informações sobre um sistema, mais preciso será o Plano de Segurança da Água.
A partir desse exemplo, vamos trabalhar as demais etapas do PSA: identificar os perigos e eventos perigosos e elaborar a matriz de avaliação de riscos.
Depois da descrição do sistema, o passo seguinte é registrar os possíveis perigos e eventos perigosos em cada etapa, determinando o nível de risco que eles apresentam. Para isso é importante conhecer bem esses dois conceitos.
Perigos: agentes físicos, biológicos, químicos ou radiológicos presentes na água, que podem causar danos à saúde (situações que podem danificar a infraestrutura e/ou afetar o fornecimento de água ou o serviço fornecido pelo prestador).
Eventos perigosos: introduzem perigos ou impedem sua eliminação no sistema de abastecimento de água. Por exemplo, chuvas torrenciais (evento perigoso), que podem facilitar a introdução de microrganismos patogênicos (perigo) na água da fonte.
Feltmann (2023, p. 137)
Eventos perigosos
Perigos associados
Fenômenos meteorológicos e climáticos
Agricultura
Indústria (inclusive a localização de indústrias antigas e abandonadas)
Mineração (inclusive minas abandonadas)
No PSA, devem ser identificados, também, os aspectos administrativos que afetam a adequada operação e manutenção do sistema, determinando o risco potencial de cada perigo em cada passo do processo.
As especificações sanitárias também devem ser observadas, tais como: características das construções, instalações e obras hidráulicas de captação, estações de cloração, tanques de armazenamento, linhas de condução, redes de distribuição, caminhões-pipa para o transporte, distribuição e abastecimento. O descumprimento de algum desses quesitos pode ser definido como perigo associado à infraestrutura, deteriorando a qualidade da água, impedindo o fornecimento para a população ou, ainda, causando danos à saúde.
Feltmann (2023, p. 138).

A seguir, dois exemplos ilustram perigo e evento perigoso na vida cotidiana. Perceba que eles são descritos de forma associada a uma ocorrência/probabilidade e a uma consequência/gravidade.
Situação
Criança em um recinto no qual há uma janela aberta
Adulto nadando em um rio
Evento perigoso
Criança se pendurar na janela
Banhista ser levado pela correnteza
Perigo
Criança cair da janela
Banhista se afogar
Ocorrência/probabilidade do evento perigoso
Consequência/gravidade
Gravíssima (morte)
Veja como o perigo é fácil de ser identificado, mas o evento perigoso depende de uma avaliação que quase sempre é subjetiva e composta por vários fatores.
Agora que você já está familiarizado com os conceitos perigo e evento perigoso, vamos aos riscos
Risco: dano que ocorre associado ao perigo identificado. Em um sistema de abastecimento de água o risco é que seja oferecida à população uma água fora dos padrões estabelecidos pelas normas locais, potencialmente causando danos à população – esses danos podem variar de insignificantes (como uma leve diarreia) até gravíssimos (contaminação por substância tóxica).
A classificação de riscos também é da competência da equipe do PSA. Eles devem ser classificados segundo o seu efeito na capacidade que o sistema tem de fornecer água segura. Os riscos considerados de prioridade menor devem ser monitorados e podem ser minimizados mediante a aplicação de boas práticas. [...] Já os riscos muito altos, além do monitoramento, exigem investimentos urgentes no sistema.
Em caso de incidente, o serviço de abastecimento de água deve documentar a sua atuação, diligentemente, visto que mais de um perigo pode ser identificado em cada componente do sistema. A priorização e seleção dos que requerem atenção urgente são realizadas em consenso pela equipe do PSA.
Feltmann (2023, p. 139).
A equipe de PSA é responsável pelo desenvolvimento do modelo de avaliação de riscos, que deve ser claro e de simples compreensão para todos, uma vez que será utilizado por diversos atores. Esse documento será utilizado por técnicos da própria empresa de abastecimento de água, bem como por equipes da vigilância da água.
Dois conceitos são fundamentais para o desenvolvimento de uma avaliação de risco:
Ocorrência: probabilidade de o evento perigoso ocorrer.
Consequência: efeito do perigo identificado sobre o fornecimento de água, a qualidade dela, ou sobre o serviço oferecido pelo prestador.

Cabe ressaltar que o termo probabilidade pode ser usado como sinônimo de ocorrência e o termo gravidade, como sinônimo de consequência. Neste material vamos utilizar ocorrência e consequência.
Para desenvolver o modelo de avaliação de riscos, a equipe de PSA deve definir níveis de ocorrência, níveis de consequência e atribuir pontuação a cada um deles. Um modelo de avaliação de riscos complexo pode ter muitos níveis de ocorrência e consequência, desde que seja de fácil compreensão por todos os profissionais envolvidos. Aqui vamos exemplificar com um modelo simples, de cinco níveis:
Descrição da ocorrência
Pontuação
Quase certo
5
Muito frequente
4
Frequente
3
Pouco frequente
2
Raro
1
Descrição da consequência
Pontuação
Muito grave
16
Grave
8
Moderada
4
Baixa
2
Insignificante
1
Uma vez que a equipe de PSA tenha classificado os riscos e atribuído pontuação para a ocorrência e consequência de cada um deles, é hora de calcular o risco. O risco é o produto da pontuação atribuída à ocorrência e à consequência.
Risco = Ocorrência x Consequência
Considerando o exemplo de descrição de ocorrência e consequência visto anteriormente, desenvolvemos o modelo de classificação de risco apresentado no Quadro 5.
OCORRÊNCIA
CONSEQUÊNCIA
Insignificante (1)
Baixa
(2)
Moderada
(4)
Grave
(8)
Muito grave (16)
Quase certo
(5)
Baixo
(5)
Médio
(10)
Alto
(20)
Muito alto (40)
Inaceitável (80)
Muito frequente
(4)
Baixo
(4)
Médio
(8)
Alto
(16)
Muito alto (32)
Inaceitável (64)
Frequente
(3)
Baixo
(3)
Médio
(6)
Médio
(12)
Alto
(24)
Muito alto
(48)
Pouco frequente
(2)
Baixo
(2)
Baixo
(4)
Médio
(8)
Alto
(16)
Muito Alto
(32)
Raro
(1)
Baixo
(1)
Baixo
(2)
Baixo
(4)
Médio
(8)
Alto
(16)
Veja a classificação do risco, de acordo com a pontuação:
Inaceitável (52-80)
Risco extremo e não tolerável; necessidade de ação imediata
Muito alto (32-51)
Risco não tolerável; necessidade de atenção extrema
Alto (16-31)
Risco com necessidade de atenção
Médio (6-15)
Risco controlável por meio de procedimentos de rotina
Baixo (1-5)
Risco tolerável, sem necessidade de controle
Todos os riscos devem ser documentados no PSA e submetidos a exame periódico, inclusive se for pouco provável a ocorrência deles e se forem classificados como risco baixo ou médio. É importante considerar que as condições do momento da elaboração inicial do PSA podem sofrer alterações, mudando, assim, a classificação do risco.
A partir do modelo de avaliação definido pela equipe responsável, utilizamos a matriz de avaliação de riscos para facilitar a organização das informações, uma vez que em um sistema de abastecimento de água há muitos perigos que devem ser avaliados. Nessa matriz, os perigos são listados nas colunas e as etapas de avaliação são apresentadas nas linhas.
Ao longo deste módulo, você aprenderá a construir a matriz de avaliação de riscos. Para facilitar o entendimento dos campos que devem ser preenchidos e analisados, a construção será apresentada de forma gradual, em etapas.
Começamos a nossa construção com o Quadro 5, que mostra como os perigos podem ser organizados para que sejam avaliados de forma clara e simples por todos os envolvidos. Neste exemplo, optamos por apresentar três perigos, um para cada etapa do processo. Entretanto, cabe ressaltar que cada etapa pode estar vinculada a vários perigos, e, ao construir uma matriz de avaliação de riscos, é importante considerar todos eles. Esta é a primeira parte da matriz de avaliação de riscos que vamos explorar.
Nesse exemplo, os perigos foram organizados a partir das fases do abastecimento de água: captação/fonte, distribuição/armazenagem e usuário. Também poderia ser incluída a etapa de tratamento. A estruturação da matriz de avaliação de riscos dessa forma facilita a análise por parte da equipe do PSA.
Além de determinar os perigos e avaliar os riscos, a equipe do PSA é responsável por documentar as medidas de controle (também chamadas de medidas de correção) existentes e potenciais.
Medidas de controle: são ações, atividades e processos aplicados para prevenir ou minimizar os perigos que ocorrem. É qualquer medida ou atividade que possa ser utilizada para evitar ou eliminar um perigo para a segurança da água ou para reduzir esse perigo a um nível aceitável.
Todas as medidas de controle devem ser avaliadas periodicamente pela equipe responsável. Dependendo do tipo de medida de controle, a sua eficácia pode ser determinada por uma inspeção às instalações, pela análise das especificações do fabricante ou pelos dados de monitoramento.

A redução do risco alcançada por cada medida de controle é uma indicação de sua eficácia. Caso a eficácia não seja conhecida no momento da avaliação inicial de riscos, o risco deve ser calculado como se a medida não tivesse funcionado.
A estimativa da eficácia da medida de controle pode ser desafiadora e não suficiente para que tenhamos segurança sobre a qualidade da água. Diante disso, aplicamos o princípio de múltiplas barreiras, que consiste na utilização de várias medidas de controle, estabelecendo procedimentos para prevenir, reduzir, eliminar ou minimizar a contaminação.
Além de verificar se as medidas de controle existentes e potenciais são eficazes ou não, os riscos devem ser recalculados, considerando-se todas as medidas de controle. Nesse momento, medidas adicionais de correção são estabelecidas e avaliadas, e o processo deve ser feito e refeito até se obter um risco tolerável da qualidade da água. Assim como nas demais etapas do processo, o detalhamento de todas as medidas de controle deve ser documentado pela equipe envolvida.
Cabe ressaltar que, ao avaliar as medidas de controle, não basta apenas analisar o quão eficazes elas são em geral ou no decorrer de um longo período. Também é importante levar em conta a possibilidade de que essas medidas falhem temporariamente ou sejam ineficazes por curtos períodos.
Por exemplo, mesmo que uma medida de controle funcione bem na maior parte do tempo, pode haver momentos específicos em que ela não funcione corretamente, seja por falhas técnicas, falta de manutenção, erro humano ou outros fatores. Esses momentos de falha temporária podem ser críticos, especialmente se ocorrerem em situações de alto risco. Portanto, além de avaliar a eficácia média a longo prazo, também é importante planejar e mitigar as possíveis falhas que podem ocorrer em períodos curtos, pois há risco de elas comprometerem a segurança ou o funcionamento do sistema.
Vamos retomar os exemplos do cotidiano, considerando a avaliação do risco e a medida de controle:
Situação
Criança em um recinto no qual há uma janela aberta
Adulto nadando em um rio
Avaliação do risco
Inaceitável
Alto
Medida de control
Instalação de rede de proteção na janela
Placa sinalizando perigo de correnteza
Que medidas de controle você aplicaria para reduzir ou eliminar o risco de a criança cair da janela? Qual a confiabilidade/eficácia dessas medidas? Uma rede de proteção instalada por um especialista terá, provavelmente, alta confiabilidade, uma vez que o risco será anulado. Retirar do recinto a cadeira que a criança poderia usar para subir na janela é uma medida de controle com um certo nível de risco, pois alguém poderá levar a cadeira de volta para o ambiente, sem ter noção do perigo dessa ação. Ou seja, o perigo pode ser reinserido no recinto.
Já em relação ao banhista, a instalação de uma placa com a informação de perigo de correnteza permite que ele tome a decisão de nadar ou não, a partir das habilidades que tem. Nesse caso, a medida de proteção terá uma boa eficácia, reduzindo o risco para níveis toleráveis.
Agora vamos voltar ao exemplo da matriz de avaliação de risco, adicionando as medidas de controle. Perceba: não basta listá-las, é preciso avaliar se são eficazes, se é necessário adotar algum controle adicional e recalcular o risco.
Para cada risco classificado como alto, muito alto ou inaceitável, é necessário implementar uma medida de controle. Após sua implementação, deve-se avaliar a eficácia dessa medida e, com base nos resultados, a equipe de PSA deve então realizar uma nova avaliação do risco (Quadro 8).
Vamos analisar mais especificamente a fase de distribuição/armazenagem, uma vez que no Quadro 6 foi apontado que a medida não era eficaz. Neste caso, é necessário tomar uma medida de controle adicional. No Quadro 9, indicamos que essa medida consiste na verificação da dosagem de cloro nos pontos críticos de controle (PCC), utilizando-se os limites de cloro residual conforme as normas vigentes, na tentativa de minimizar o risco.
Uma medida de controle pode ter como referência o PCC ou o limite crítico.
Ponto crítico de controle (PCC): é qualquer etapa em que os riscos possam ser evitados, eliminados ou reduzidos para níveis aceitáveis. Nesse local, devemos aplicar práticas e procedimentos que possam reduzir o risco à saúde de quem consumir a água.
Limite crítico: é o limite mínimo ou máximo em determinado parâmetro de um processo que pode acarretar perigo para a saúde pública ou provocar uma interrupção no fornecimento de água.
A construção de um Plano de Segurança da Água depende diretamente dessas análises e do estabelecimento de medidas de controle eficazes. A matriz de avaliação de riscos é uma ferramenta central nesse processo, uma vez que organiza de maneira clara e objetiva os riscos presentes nas diferentes etapas do sistema de abastecimento de água, ajudando a equipe envolvida a priorizar ações e tomar decisões informadas sobre as medidas de controle necessárias e, assim, garantir a qualidade da água para a população.
Agora é a sua vez de construir uma matriz de avaliação de riscos. Vamos lá?
Esta atividade está estruturada em duas partes e o objetivo é a construção de uma matriz de avaliação de riscos em grupo (Parte 1) e um debate em um webencontro (Parte 2).
Retome a Descrição do sistema de abastecimento de água (SAA) vista no início deste módulo e, junto com o seu grupo, estruture uma matriz de avaliação de risco. Utilize o Template – Matriz de avaliação de risco. Preencha apenas os campos referentes à etapa do processo pela qual seu grupo ficou responsável.
Comece preenchendo os campos referentes à Parte 1 e identifique três eventos que introduzem um agente perigoso e os perigos associados. Preencha também as colunas de avaliação do risco: ocorrência, consequência, pontuação do risco e nível do risco.
Depois disso, preencha a Parte 2. Aqui você terá que indicar as medidas de controle atuais e analisá-las. Debata com seus colegas cada etapa da avaliação do risco. Vocês podem ter percepções diferentes, mas precisam chegar a um consenso.
Acessea Atividade 5 – Parte 1 e envie seu trabalho para o(a) docente a distância.
Todos os integrantes do grupo devem enviar a mesma matriz para o(a) docente a distância.
Esta atividade não termina aqui. Você deverá desenvolver uma apresentação com o seu grupo. Acesse a Atividade 5 – Parte 2 e saiba mais.
Prepare uma apresentação com o seu grupo para compartilhar com a turma e com o(a) docente a distância. A apresentação deve conter os principais pontos da matriz de avaliação de risco, trazendo a discussão envolvida no seu desenvolvimento. O que motivou a escolha das medidas de controle e as novas avaliações de risco? Quais são os benefícios e os pontos de atenção?
Vocês terão até 10 minutos para compartilhar com a turma a avaliação dos riscos da etapa do processo pela qual ficaram responsáveis. Ao final, haverá uma plenária para discutir o desenvolvimento da matriz de avaliação de risco com toda a turma.
O dia e o horário do webencontro serão agendados pelo(a) docente a distância.